AS MÚMIAS MODERNAS

Devaneios e bizarises para depois do Globo Repórter…

Os egípcios antigos acreditavam na vida após a morte, para isso, conservavam seus corpos, através de técnicas de mumificação, na esperança que o espírito (ka) permanecesse vivo, em um oSer um utro mundo fantástico, enquanto o corpo morto (khet) se conservasse. Essas técnicas consistiam, basicamente, em: aberto o corpo, as vísceras eram retiraras, sendo o coração e outros órgãos guardados em recipientes; em seguida, aplicava-se um ácido pelas narinas e o corpo era então mergulhado em natrão (espécie de sal); depois de desidratado, preenchia-se com serragem e aplicava-se outras substancias; enrolava-se o corpo em faixas brancas, junto com vários amuletos, e então levava-o a tumba, rica em objetos religiosos e ouro, localizada geralmente em enormes pirâmides. Somente faraós e grandes sacerdotes tinham direito a mumificação.

Quase 4 mil anos depois, a crença na vida após a morte ainda persiste, assim como a mumificação, agora sob roupagem moderna (é engraçado como a modernidade adora dar novas “roupagens” para as coisas), denominada: criogenia. O natrão foi substituído por nitrogênio liquido; as “tumbas” localizam-se em centros tecnológicos especializados; e os beneficiados são os “faraós” de hoje, pessoas ricas, famosas, além de animais domésticos especiais, como papagaios e cachorros, todos “escolhidos por deus” e merecedores da vida eterna.

Mas em que se fundamenta a criogenia? Uns diriam que em bases cientificas, mas prefiro ir além, a criogenia fundamenta-se em bases “divinas”, fruto do que Bruno Tolentino chama de “gnosticismo moderno”: a Ciência – deusa perfeita e inquestionável, com seus santos profetas canonizados do Renascimento ao Iluminismo, do humanismo ao estruturalismo – exige de seus devotos a fé cega no progresso inesgotável, além de pequenas oferendas de gratidão, colhidas pelo seu principal sacerdote, o grande capital. É a “birra” moderna contra a morte e qualquer limitação humana, num sonho utópico, esperançado no pensamento racional-científico, que nos levará ao “paraíso em terra”, a substituição do homem por um outro ser perfeito, estável e purificado: qualquer outro ser, menos o humano.

“… os mais notórios exemplos do gnóstico secular de nossos tempos, assim na casta sacerdotal que lhes corresponde, os High Priests e Hierofantes da moderna academia – de Kant, Hegel, Nietzsche, Marx, Engels, Bakunin, Comte, Gramsci e Heidegger até o atual séquito de tantos maestrotes – todos foram, são e quase sempre sabem ser a fina flor carnívora da Gnose, da mentira, do ódio e da destruição final de tudo. Os maiores dentre os filósofos de nossa era, desde a confusa aurora oitocentista (a mais sangrenta Morgenrote que houvesse jamais conhecido a humanidade), tiveram sempre razão ao menos num ponto em que coincidem todos: a ‘morte de Deus’ não produz o advento do super-homem, é uma mentira do Zaratustra alemão; o que ela produz, como se vem verificando ao longo deste nosso curto e enfatuado século, é o sistemático e sintomático massacre do homem pelo rato.”

“O Mundo como Idéia” – Bruno Tolentino

A religião moderna – como em outras religiões – promete a vida eterna a seus devotos, no entanto, diferentemente de outras crenças, num processo de fé baseada no método e no conceito, como Tolentino bem exemplifica, culmina-se na “morte” da morte, pagando-se como preço irrevogável o próprio homem.

THIAGO GOMES BARBOSA – Turma 76

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